Emilio de'Cavalieri (1550-1602)

 

 

 

Emílio de’Cavalieri nasceu em Roma em 1550, e pensa-se que desde cedo nessa cidade exerceu actividade como organizador e compositor de música. No oratório de San Marcello, Cavalieri exerce funções directivas sobre a música tocada pela Quaresma desde o ano de 1577, e até 1584 dirige as finanças das actividades artísticas da instituição.

Quando Ferdinando de Medicis volta ao trono toscano em 1587, Cavalieri recebe em Florença o cargo de Intendente das actividades artísticas da corte, substituindo o Conde Bardi, e assumindo o seu vultuoso salário e respectivos aposentos no Palazzo Pitti. Durante os 13 anos que Cavalieri permaneceu em Florença, voltou várias vezes a Roma, onde conheceu outros grandes músicos do seu tempo: Frescobaldi, Quadigliati, Gesualdo, que estando em Roma quis conhecer Cavalieri.

Bem inserido na sociedade cardinalícia, Cavalieri era frequentemente requisitado para desempenhar missões diplomáticas, mas os seus interesses iam mais além da música e da diplomacia: coleccionava objectos de arte, pintura e objectos, e era um apaixonado construtor de instrumentos. Chegou a fundar, no fim da sua vida, uma fábrica de cristal.

Foi para os esponsais de Ferdinando de Medicis e de Cristine de Lorraine que em 1589 Cavalieri organizou a espectacular representação dos Intermedii della Pellegrina. Compôs para esta ocasião dois madrigais para voz sola, escreveu a coreografia do ballet final, no qual dançou. No ano seguinte, pôs em música duas pastorais, hoje perdidas (La Disperazione di Fileno, e Il Sátiro), que parecem ter sido os primeiros melodramas musicais da história da música. Também compôs coros para a representação da Aminda de Torquato Tasso. Em Fevereiro de 1600 faz representar La Rapresentazione dell’Anima e del Corpo, que é publicada em Setembro desse mesmo ano. Devido à mudança dos ventos políticos em Florença e a crescente hostilidade desta cidade para com os romanos, Cavalieri volta à sua cidade natal e ali morre a 11 de Março de 1602.

Se seria com Monteverdi que a ópera tomaria a sua forma mais definitiva e consistente por nós hoje conhecida, é decerto à geração de Cavalieri que tal se deve. De facto, é no espaço de 20 anos que vai de 1580 a 1600 (ano das Rapresentazioni) que as sementes da ópera são sedimentadas. A autoria desta invenção é incerta, e o que é mais provável é que a ópera seja uma feliz evolução do teatro renascentista italiano que vários músicos pressentiram nesta época, aliando a expressão madrigalesca e o stile nuovo à palavra cénica.

Este grupo compôs-se essencialmente pelos músicos Cavalieri, Jacopo Peri, e Giulio Caccini. Entre os três foi Cavalieri porém que passou à história como o primeiro compositor de uma obra dramática inteira em recitare cantando, o estilo monódico que caracteriza a ópera inicial até Monteverdi, as Raprasentazioni dell’Anima e del Corpo. É uma partitura no mais refinado estilo teatral e humanístico de finais de 1500, onde é procurado e conseguido o recriar o mais fiel possível das expressões da alma humana, bem ao gosto da renascença.

Porém, é esta a época de transição do Renascimento para a Contra-Reforma, e a sua expressão artística, o Barroco, e em Cavalieri isto é bem evidente, sobretudo nas suas Lamentações de Jeremias, cuja música alia os primeiros recitativos da história (a obra é anterior às Raprasentazioni) à nova expressão dos coros monofónicos, resultando uma expressão mística e religiosa típicas daquilo que é o sentimento contra-reformista e barroco daquela época em Itália.

 

 

Emilio de'Cavalieri: Extracto de "Rapresentazioni"

Emilio de'Cavalieri: Extracto das Lamentações (Una hora non potuistis)

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