~             Musicantiga.com.sapo.pt     ~

Estêvão Lopes Morago (c1575 – após 1630).

 

Texto de Ivan Moody, aqui transcrito devido à sua excelência.

“O facto de Estêvão Lópes (ou Esteban López) Morago, figura significativa da história musical portuguesa, ser, na verdade, espanhol de nascimento, é indicativo dos processos naturais de intercâmbio cultural entre os países naquela época; um intercâmbio independente de Portugal ter estado sob o domínio espanhol de 1581 a 1640. Morago foi um dos três alunos conhecidos de Filipe de Magalhães em Evora; os outros dois, Estêvão de Brito e Manuel Correia, seguiram o rumo oposto ao de Morago e foram trabalhar na Espanha.

Morago nasceu em Vallecas (agora parte de Madrid) em cerca de 1575, mas posteriormente passou quase toda a sua vida em Portugal. Após estudar em Évora com Magalhães, tomou-se cónego e Mestre de Capela da Catedral de Viseu (no norte do país) de 1599 até 1628. Então, retirou-se para o monastério franciscano em Orgens, perto de Viseu, e morreu em 1630 ou depois. A sua música sobrevive nos arquivos de Viseu.

A influência de Magalhães aparece claramente na límpida técnica contrapontual de Morago (como também ocorre com a obra de Brito e Correa), mas o que causa impacto especial na música de Morago é a utilização ousada da dissonância, e, em várias obras de carácter harmónico mais directo, um interesse em efeitos antifonários. Motetes como “Oculi mei”, de tonalidade ambígua e intercalados com inúmeras quartas reduzidas, demonstram perfeitamente o uso expressivo a que essa ousadia harmónica se presta. As alternâncias desse tipo intenso de composição imitativa e elaborada minuciosamente com espasmos súbitos de homofonia rítmica também são características de “Versa est in luctum” e “Commissa mea”; de facto, a composição de Morago para textos penitenciais e fúnebres é sensível ao extremo. Compositores anteriores como Cardoso, ou até Magalhães (para não mencionar seus antecedentes espanhóis como Guerrero), jamais poderiam ter concebido o tipo de justaposição abrupta que ocorre em “Versa est”, quando a palavra ‘organum’ subitamente salta do contexto polifónico, ‘sublinhada’, por assim dizer, num clarão de homofonia dançante. O cúmulo plangente de suspensões em ‘nibil sunt dies mci’, mais adiante na peça, decerto foi antecipado por outros compositores, mas, mesmo assim, quanto à intensidade de efeito em apenas quatro partes, Morago é único.

Peças como “Laetentur caeli” e Montes Israel demonstram que Morago era igualmente capaz de responder a outros tipos de texto, como também o demonstram suas composições e responsórios sobreviventes para matinas de Natal; mas é pelo que tem frequentemente sido chamado de qualidades ‘maneiristas’ de suas composições de textos mais emotivos que ele é conhecido, e que é algo com frequência considerado representativo da música ibérica desse período à custa de outros aspectos o ênfase moderno sobre “Misso pro Defunctis” para a Rainha Vitória e os Responsórios Tenebrae à custa de suas outras composições para missa ou motetos é o principal exemplo desse fenómeno. Apesar disso, a música de Morago, precisamente por esse motivo, complementa muito bem a do compositor posterior Diogo Dias Melgás.”

 

 

Voltar atrás.